Entrevista com Sig Bergamin

23/05/2019 10:11

Por Adriano Degra

Dono de um modo único de decorar, o arquiteto e design de interior Sig Bergamin consegue misturar diversas cores, tecidos e texturas de uma forma harmônica e particular. A criatividade e o talento correm em suas veias e uma de suas principais características é valorizar o ecletismo, a diversidade étnica, o humor e a versatilidade.

Após ganhar notoriedade nacional com a decoração da lendária casa noturna The Gallery, frequentada pela high society paulistana na década de 1980, Sig conquistou o mundo e hoje tem Nova Iorque como sua segunda casa. Acostumado com o luxo e a desenvolver projetos para ricos e famosos, Sig já viajou mais de 20 vezes para Índia, onde observa o exótico e busca inspiração. Nesta entrevista exclusiva, Sig Bergamin fala sobre o seu primeiro livro internacional chamado Maximalism; conta um pouco do início da sua trajetória, e muito mais.

Você se recorda em qual momento da sua vida decidiu que teria a arquitetura como profissão?

Eu nasci em uma cidade pequena, chamada Mirassol, que fica no interior de São Paulo. Desde cedo eu tinha interesse em brincar com cores e já decorava o meu quarto, eu gostava muito. Com 14 anos decorei o club da cidade, para um baile de carnaval, e fiz com muito empenho mesmo sabendo que ninguém iria me pagar por isso. E deu certo! Foi aí que decidi o que fazer da vida.

Os seus projetos costumam ter bastante cor e vida, qual é o caminho para utilizar o maximalismo com perfeição?

O Maximalismo é a euforia do risco. É o garimpo multiétnico de objetos, a diversidade de tecidos, a paleta extensa de cores, enfim. É pegar inúmeras referências e compor algo único e com personalidade. Mas, para fazer isso não pode ter medo, tem que correr riscos. E esse processo é inspirador.

Projeto realizado por Sig Bergamin

Você acredita que um bom projeto de arquitetura e design de interior é aquele que consegue transmitir os sentimentos do anfitrião?

Com certeza. Os sentimentos do anfitrião são importantes, mas não é apenas isso. Acima de qualquer coisa, a casa precisa ter conforto. Conforto e praticidade. E ao mesmo tempo, a geografia do lugar é importantíssima. O que está fora tem que refletir o que está dentro. Projetos em que tudo é parecido, onde não se sabe se estamos em São Paulo ou Miami me incomoda. E o meu ofício é fazer todas essas questões conversarem, fazer um projeto único.

Você é um apreciador da beleza estética em todos os aspectos, o que mais te incomoda visualmente em uma decoração residencial mal feita?

A falta de personalidade. Como eu disse acima, estar em uma casa onde eu não vejo a personalidade do dono, o contexto onde ela está inserida, isso me incomoda, a residência fica sem alma.

Viajar (e ser um bom observador) é um dos melhores cursos para se tornar um ótimo arquiteto?

Sim, posso afirmar sem medo de errar, e sendo um bom observador, você consegue ver detalhes que passam despercebidos pela maioria. É, sem dúvida, um caminho para atingir o sucesso.

Em sua opinião, quais são as principais diferenças da arquitetura praticada quando você começou a atuar na área e a de agora?

Houve uma mudança significativa. Antes, a busca dos clientes era por ostentação, por “aparência”. Hoje eu vejo que a prioridade é o conforto e a praticidade.

Sig Bergamin é um apreciador da beleza estética

Quais são os projetos que mais marcaram a sua trajetória profissional?

Eu encaro sempre como o próximo, o que está por vir, o que estou fazendo agora. Isso me motiva a sempre inovar e fazer melhor.

Você já desenvolveu diversos projetos arquitetônicos e de design de interiores fora do Brasil, em qual lugar o trabalho brasileiro é mais valorizado? Por quê?

Em Nova York é onde eu sinto que mais valorizam. A cidade é enorme, cheia de gente, de todo o tipo, de todos os lugares. É uma vitrine do mundo.

Onde você busca inspiração para realizar os seus trabalhos? 

Vem muito do meu blackgrond. Vejo muitos livros, revistas e material de arquivo. Tenho uma seção na biblioteca do escritório focada em referências e inspirações. Além disso, as viagens também são grandes fontes de inspiração, mas é no cinema, com Bertolucci, que minha imaginação viaja.  E eu misturo tudo isso. Não opto pelo óbvio, sem medo de errar.

Mesmo com todo o seu sucesso profissional, tem algum trabalho que sonhe em fazer e ainda não teve a oportunidade?

O meu sonho sempre é o próximo projeto, o novo, o que está por vir. Projetos novos e audaciosos.

Como surgiu a ideia de produzir o seu primeiro livro internacional "Maximalism", lançado pela editora francesa Assouline?

Eu vejo esse livro como uma conclusão dos quatro livros anteriores que eu tenho. Todo mundo pensa que é uma coletânea dos meus melhores projetos, e não é. São projetos de três ou quatro anos atrás. E sou o primeiro designer de interiores brasileiro a ter um livro da Assouline, que na minha opinião, é uma das editoras mais prestigiadas do mundo. Foi um grande passo ter um livro internacional, uma realização.

Esse livro representa o jeito brasileiro de viver e qual foi o feedback do público que vive no exterior sobre esse estilo?

O feedback foi maravilhoso! O livro teve uma ótima repercussão aqui e no exterior. Mas, eu considero que o livro representa sim o Brasil, como também a Europa e os Estados Unidos. Afinal, os projetos fotografados para o livro estão nessas regiões e o local das residências é de grande importância e dão originalidade ao projeto. É um livro de cores, de vida e de personalidade.

Nessa obra você reuniu depoimentos de amigos importantes como o príncipe Dimitri da Iugoslávia e o empresário italiano Giancarlo Giammetti, cofundador da marca Valentino. Fale sobre a importância dessas participações.

É um privilégio ter depoimentos de personalidades tão importantes como essas pessoas, grandes formadores de opiniões, mas, principalmente, meus amigos.

Qual conselho você daria para quem deseja iniciar nessa área de arquitetura e design de interiores?

Arrisque mais. Viaje mais. Leia mais. Não tenha medo. Não coloque limites.

Para qual destino você gosta de viajar para recarregar as energias?

Eu gosto de ir para Saint-Barts (no Caribe) nas minhas férias.

Qual é o seu hobby?

O meu hobby é ficar com as minhas filhas: China, Índia (buldogues francesas) e África (labradora).